Nas redes sociais, muitos praticantes exibem com orgulho a sua transformação física. Publicam o clássico «antes e depois», mostrando culotes, gordura abdominal e peitorais flácidos substituídos por uma silhueta mais definida e músculos bem marcados. Para muitos, esse aparente milagre tem um nome: Crossfit.
Chegado às salas de desporto francesas há cerca de cinco anos, vindo dos Estados Unidos e impulsionado sobretudo pela marca Reebok, o fenómeno continua a conquistar adeptos. Hoje, reúne mais de 200.000 praticantes. Para muitos deles, já não se trata apenas de uma modalidade, mas de um verdadeiro estilo de vida, com vocabulário e códigos próprios. A sala de desporto tradicional passou a chamar-se «box». Remadores, bicicletas estáticas e aparelhos clássicos de fitness parecem pertencer a outro tempo, substituídos por halteres, pesos, barras de tração e outros acessórios de prazer… ou de tortura, dependendo do ponto de vista. Até a «sessão de treino» ganhou outro nome: «WOD», ou workout of the day. Um pequeno dicionário inglês-português pode ser útil, já que as flexões passaram a ser push-up e as trações, pull-up.

O Crossfit: mais de 52 exercícios para queimar calorias
A lista de 52 exercícios associados ao conceito é bastante ampla. O Crossfit mistura musculação, halterofilismo e movimentos de ginástica, daí a ideia de «treino cruzado». A prática trabalha dez capacidades principais: resistência cardiovascular e muscular, equilíbrio, agilidade, precisão, potência, velocidade, flexibilidade, coordenação e força. Todas têm um ponto em comum: são desenvolvidas em alta intensidade, com tempos de recuperação curtos. Resultado: o gasto calórico aumenta rapidamente. Mas o risco de lesões também cresce, sobretudo quando as repetições são feitas à pressa e a técnica deixa de ser precisa. Respeitar a mecânica correta dos movimentos é fundamental. Muitos treinadores defendem a mesma ideia: é melhor levantar menos peso e executar o exercício de forma perfeita do que forçar demasiado e perder qualidade no movimento.
O ambiente das «box», muito baseado no coletivo, na motivação do grupo e na superação pessoal, também pode levar a excessos. Mais rápido, mais pesado, mais intenso. A curto prazo, os efeitos no corpo podem aparecer depressa, o que torna a prática muito motivadora. Mas, a longo prazo, esse ritmo pode deixar marcas.
A intensidade constante pode levar alguns praticantes a negligenciar a recuperação. No entanto, esse tempo é indispensável para evitar esforços contraproducentes e reduzir o risco de lesão. Depois de sessões muito exigentes, não é raro surgirem fadiga, rigidez muscular e dores articulares.
Levar o corpo a um nível elevado de esgotamento para melhorar a condição física não é uma estratégia sem perigo. Quando há desequilíbrio entre intensidade e falta de descanso, alguns praticantes podem apresentar aumento da frequência cardíaca em repouso, um fator associado ao risco cardiovascular. Em caso de sobretreino, acompanhar o ritmo cardíaco em repouso pode ajudar a identificar alterações preocupantes.
A rápida expansão do Crossfit também abriu caminho para oportunidades de lucro quase imediato. Em teoria, a formação dos instrutores deve ser enquadrada por diplomas e conhecimentos sólidos em fisiologia, nutrição e segurança desportiva. Na prática, nem todas as estruturas respeitam esse nível de exigência, sobretudo quando são movidas por ganhos rápidos.
Num universo de desporto e saúde onde novos conceitos surgem tão depressa como novas dietas, o Crossfit teve uma ascensão fora do comum. Uma ascensão à altura dos esforços que exige. Resta saber se os excessos que por vezes provoca não acabarão por comprometer o seu próprio sucesso.