O mito do barril do São Bernardo
Imagine a cena novamente: o cachorro chega, o aventureiro tremendo aceita dois goles do tal rum milagroso e, de repente, as bochechas ganham cor. Depois de mais um gole, ele já parece pronto para enfrentar novamente as montanhas geladas. Parece até fácil, não?
Mas o que ninguém conta é o que acontece dentro do corpo nesse momento. O São Bernardo real, treinado entre a Suíça e a Itália pelos monges do histórico Hospício do Grande São Bernardo, tinha realmente a missão de resgatar vítimas de avalanches. Mais ainda: seu faro era tão sensacional que conseguia encontrar pessoas soterradas sob quase seis metros de neve! Porém, o papel dele nunca foi dar bebida alcoólica para montanhistas perdidos. Esse barril famoso é, na verdade, só uma imagem – e não uma missão real dos valentes cães.
O que a ciência diz sobre o álcool no frio?
Beber uma bebida alcoólica parece aquecer na hora, porque faz o sangue correr para mais perto da superfície da pele. Porém, como explica o Professor Colin Drummond, chefe do Departamento de Pesquisa sobre Álcool do King’s College London, no site Drinkaware.co.uk:
“Se você se encontra no frio depois de beber álcool, como a sua reserva de calor está concentrada na superfície da pele, quando você fica exposto ao frio, vai perder esse calor muito rapidamente.”
Ou seja: o calor vai embora rapidinho. E o pior é o que acontece por dentro: quanto mais sangue circulando na pele, menos sangue aquecendo seus órgãos vitais. O resultado? Eles esfriam dramaticamente em pouco tempo, o que pode levar rapidamente à hipotermia – e sim, esse perigo é real e pode ser fatal. Definitivamente não é isso que alguém espera quando o objetivo é sobreviver, e não fazer anjos na neve.
De onde veio esse barril lendário?
Se o álcool não ajuda e, na verdade, até atrapalha a sobrevivência no frio, como foi que essa história pegou tanto? A resposta está na arte! O mito nasceu de uma pintura feita pelo artista inglês Edwin Landseer, ainda em 1820. No quadro, dois São Bernardos aparecem cuidando de uma vítima de avalanche. E sim, no pescoço de um deles aparece o tal barrilzinho – que, segundo a descrição do próprio pintor, estaria “cheio de conhaque”.
Pronto: estava lançada a lenda que até hoje sobrevive em inúmeros filmes e histórias, mesmo resistindo a toda e qualquer ressaca alpina. A mistura de bravura canina com um toque de álcool pegou fundo na imaginação popular, cruzando séculos e invernos sem perder o charme (mas, atenção, sem nenhuma comprovação científica a favor!).
Bebida alcoólica esquenta mesmo?
Depois de tudo isso, vale lembrar: aquele gole de conhaque pode até dar uma sensação passageira de calor, mas no frio intenso, ele pode ser a pior escolha. Por isso, melhor manter o São Bernardo para os abraços e, se estiver nas montanhas, levar um bom casaco ao invés de confiar na “ajuda” alcoólica. Afinal, mito é mito – e a ciência não deixa dúvidas quando o assunto é sobreviver ao frio.