Embora a chuva de sangue seja um recurso frequente em histórias assustadoras no cinema, um fenómeno semelhante realmente ocorre na Terra. Nada de sobrenatural ou demoníaco: é apenas um evento natural extremamente raro.
Durante muito tempo, relatos históricos que descreviam esse tipo de chuva foram considerados simples lendas. Só mais tarde os cientistas descobriram que havia uma explicação concreta por trás dessas histórias. Na verdade, trata-se de um fenómeno meteorológico e biológico ao mesmo tempo.

Um dos exemplos mais conhecidos e melhor documentados cientificamente é a chuva vermelha observada em Kerala, na costa de Malabar, na Índia. O fenómeno foi registado várias vezes ao longo de cerca de um século: em julho de 1957, depois em julho e setembro de 2001, e novamente em junho, novembro e dezembro de 2012.
A chuva apresentava uma coloração vermelho escuro, muito semelhante à do sangue. No início, alguns especialistas pensaram que o fenómeno poderia estar ligado à explosão de um meteorito na atmosfera, que teria espalhado bilhões de fragmentos microscópicos pelo céu.
Uma chuva de algas vermelhas levadas pelo vento
Weather Fact: It rained “blood” in India
The Kerala red rain occurred from July to September 2001. Heavy downpours of red rain fell sporadically on the southern Indian state of Kerala.
Yellow, green and black rain was also reported. The rains were coloured by algae spores. pic.twitter.com/r2O9t66UGa— Kashmir Weather (@Kashmir_Weather) July 26, 2020
Com o tempo, análises realizadas por especialistas em botânica revelaram uma explicação completamente diferente. Afinal, não se tratava de sangue – e muito menos de areia.
Tal como acontece com o chamado ‘sangue dos glaciares’, aquelas manchas avermelhadas que por vezes aparecem na superfície de alguns glaciares, a origem dessas chuvas coloridas também é vegetal.
Na realidade, a chamada chuva de sangue é provocada por uma chuva de algas microscópicas. Mais especificamente, trata-se de um tipo de líquen chamado Trentepohlia, um organismo rico em carotenoides, os pigmentos responsáveis pela sua intensa cor vermelha.
Essas algas vivem sobretudo na superfície de troncos de árvores e em ambientes húmidos. Em condições normais permanecem fixas nesses locais, quase invisíveis a olho nu. No entanto, durante episódios de ventos muito fortes, podem ser arrancadas e lançadas para a atmosfera.
Uma vez suspensas no ar, essas partículas microscópicas misturam-se com as nuvens. Quando a chuva começa, elas caem juntamente com as gotas de água, tingindo a precipitação de um tom vermelho impressionante.

Os investigadores acreditam que os episódios de chuva vermelha costumam ser precedidos por um fenómeno meteorológico específico: uma frente de rajadas de vento. Trata-se de uma aceleração súbita e intensa do vento que ocorre à frente das nuvens de tempestade.
Essas rajadas fortes conseguem levantar grandes quantidades de partículas biológicas do solo, das árvores ou das superfícies naturais. Quando são transportadas para as nuvens e posteriormente devolvidas à superfície pela chuva, surge então o curioso espetáculo da chuva vermelha.
Apesar do seu aspeto dramático e até inquietante, este fenómeno não representa qualquer perigo para os seres humanos. Pelo contrário, é apenas mais um exemplo fascinante da forma como processos meteorológicos e biológicos podem interagir na natureza.
E assim, aquilo que durante séculos parecia uma história digna de mitos ou de filmes de terror revela-se, afinal, como um curioso encontro entre o vento, a chuva e organismos microscópicos.

