O air gap, ou seja, o fato de separar fisicamente um computador de qualquer rede, é a melhor forma de protegê-lo contra qualquer ataque. As empresas utilizam o air gap em máquinas que têm uma função ou dados sensíveis demais para correr o menor risco. No entanto, essa medida nem sempre é suficiente. Mordechai Guri, da Universidade Ben-Gurion do Neguev, em Israel, é especialista em contornar esse tipo de proteção. Ele acaba de apresentar duas novas técnicas para invadir um computador sem conexão.
Transmitir dados por ultrassons
A primeira técnica foi chamada de Gairoscope. Como de costume, ela ainda exige acesso físico à máquina para instalar um malware que vai coletar informações, como senhas ou arquivos sensíveis. Depois, o programa usa uma técnica original para transmitir os dados sem fio a outro aparelho próximo. Desta vez, ele utiliza ultrassons produzidos pelos alto-falantes do PC infectado.
Até aqui, nada muito revolucionário. O que torna a técnica original é o uso de um smartphone para receber os dados transmitidos por ultrassons, por exemplo o de um funcionário que trabalha por perto. Para não despertar suspeitas no dono do smartphone, ela não usa o microfone, que exige uma autorização especial. Em vez disso, utiliza o giroscópio. Para isso, o pesquisador primeiro produziu ultrassons varrendo uma faixa de frequências e registrou as frequências específicas de ressonância que produzem vibrações nos giroscópios de um OnePlus 7, bem como de Samsung Galaxy S9 e S10.
O giroscópio tem a vantagem de que Android e iOS não exibem nenhuma indicação específica quando ele está em uso. Além disso, é até possível acessá-lo por meio de uma página com JavaScript no navegador. Portanto, teoricamente, não é necessário infectar o smartphone com um malware. Ainda assim, o aparelho precisa estar a no máximo oito metros dos alto-falantes do PC. Com essa técnica, é possível transmitir dados a uma velocidade de oito bits por segundo.
Usar os LEDs da placa de rede
A segunda técnica se chama EtherLED. Ela usa os dois LEDs da placa de rede, que normalmente indicam a conexão e a atividade. Aqui também é necessário infectar o computador com um malware. Depois de coletar informações na máquina, ele passa a controlar os LEDs para transmitir os dados, usando diferentes codificações, como o código Morse para textos simples.
Desta vez, os dados podem ser recebidos por meio de uma câmera de vigilância comprometida, uma câmera IP ou até mesmo um drone. Basta que o computador esteja no campo de visão. Os pesquisadores conseguiram atingir uma velocidade de transmissão entre um e dois bits por segundo com um malware padrão. Ao infectar o driver ou o firmware da placa de rede, chegaram a 100 bits por segundo. Assim, de acordo com o protocolo de codificação utilizado e o tipo de malware, são necessários entre 42 segundos e 60 minutos para transmitir uma chave de criptografia RSA de 4.096 bits.
O pesquisador já havia apresentado outras técnicas semelhantes, usando o LED do disco rígido, variando a luminosidade da tela ou até criando um sinal Wi-Fi com os módulos de memória RAM. Para proteger de fato um computador com air gap, seria preciso, portanto, acompanhá-lo de uma série de medidas, como fita adesiva preta sobre todos os LEDs, um bloqueador de Wi-Fi, a adição de ruídos de fundo nos ultrassons e muitas outras.
