Esse fenómeno ocorre com maior frequência em pessoas jovens e costuma surgir em momentos de fadiga ou stress. Ao longo do tempo, muitas teorias tentaram explicar o fenómeno – algumas até associadas ao paranormal, como recordações de uma vida passada ou premonições. No entanto, vários cientistas têm procurado compreender o déjà-vu através de explicações mais racionais baseadas no funcionamento do cérebro.
A sensação de déjà vu em pessoas com epilepsia
O déjà-vu foi particularmente estudado em pessoas com epilepsia, porque essa sensação aparece frequentemente como um sintoma no início de certas crises. Durante uma crise epiléptica, a atividade elétrica de alguns neurónios é alterada. Esse funcionamento anormal pode espalhar se pelo cérebro e atingir áreas específicas, sobretudo os lobos temporais medianos.
Quando essa perturbação elétrica acontece, pode surgir uma sensação intensa de familiaridade, como se a pessoa já tivesse vivido aquele momento antes. Muitas vezes, esse sentimento aparece logo no início da crise.
Os investigadores identificaram uma região específica do cérebro associada a essa sensação em pessoas com epilepsia: a região rinal, localizada logo abaixo do hipocampo. Num estudo publicado em 2012, cientistas franceses conseguiram até provocar artificialmente a sensação de déjà-vu em pacientes epilépticos ao estimular o córtex rinal.
Mas a grande questão permanece: o que acontece nas pessoas que não têm epilepsia? Uma hipótese sugere que pequenas descargas elétricas semelhantes podem ocorrer temporariamente no lobo temporal mesmo sem doença neurológica. Outra possibilidade é que o fenómeno esteja ligado a mecanismos completamente diferentes do funcionamento da memória.
O papel das áreas frontais do cérebro
Em 2016, investigadores da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, apresentaram num congresso dedicado à memória um estudo curioso sobre o déjà-vu. Para reproduzir essa sensação em laboratório, os cientistas utilizaram um método bastante engenhoso.
Os participantes receberam uma lista de palavras relacionadas entre si, como “almofada”, “cama”, “noite” ou “sonho”. No entanto, a palavra central que ligava todas as outras – “sono” – não estava presente na lista.
Em seguida, os investigadores perguntaram aos participantes se tinham ouvido palavras começadas pela letra “s”. A resposta foi negativa. Mais tarde, perguntaram lhes se a palavra “sono” tinha sido mencionada.
Curiosamente, muitos participantes tinham a certeza de que não tinham ouvido essa palavra. Ainda assim, ela parecia lhes estranhamente familiar. Era como se o cérebro dissesse: “isto parece conhecido”. Esse conflito mental produzia uma sensação muito semelhante ao déjà-vu.
Durante a experiência, os investigadores realizaram exames de ressonância magnética aos 21 voluntários. Os resultados mostraram algo surpreendente: as regiões do cérebro normalmente ligadas à memória, como o hipocampo, não estavam particularmente envolvidas no fenómeno.
Em vez disso, foram sobretudo as áreas frontais do cérebro que se ativaram. Essas regiões estão associadas à tomada de decisões e ao controlo cognitivo.
Uma das hipóteses levantadas pelos cientistas é que o córtex frontal funcione como um sistema de verificação das memórias. Quando existe um conflito entre aquilo que estamos realmente a viver e aquilo que o cérebro pensa já ter vivido, esse sistema entra em ação.
Nesse caso, a sensação de déjà-vu pode não ser um erro da memória, mas sim um sinal de que o mecanismo de verificação está a funcionar corretamente. Em outras palavras, o cérebro estaria simplesmente a alertar que algo não bate certo entre experiência e lembrança.
Assim, longe de ser um mistério sobrenatural, o déjà-vu pode ser apenas uma prova fascinante da complexidade – e da vigilância constante – do nosso cérebro.
