O nascimento da “Grande Faixa Marrom” do Atlântico
Em maio, imagens de satélite revelaram uma concentração impressionante de sargaços pelágicos — um tipo de alga marrom flutuante — formando uma faixa quase contínua entre a costa da África Ocidental, o Caribe e o Golfo do México. Esse verdadeiro cinturão de sargaços é conhecido como Grande Cinturão Atlântico de Sargaços, ou GASB, na sigla em inglês.
Durante muito tempo, os sargaços estiveram associados principalmente ao Mar dos Sargaços, uma região do Atlântico relativamente quente e pobre em nutrientes, onde essas algas flutuantes desempenham um papel ecológico importante. Mas, desde 2011, sua presença se expandiu de forma marcante pelo Atlântico tropical, formando acumulações gigantescas que hoje preocupam pesquisadores e autoridades costeiras.
Um estudo publicado na revista Harmful Algae, conduzido por pesquisadores do Harbor Branch Oceanographic Institute, da Florida Atlantic University, analisou décadas de dados de satélite, medições de campo e exames químicos. A conclusão é clara: os sargaços aumentaram em quantidade, crescem rapidamente quando encontram nutrientes disponíveis e o cinturão tem se formado quase todos os anos desde sua primeira grande aparição.
De onde vem tanto sargaço? O papel invisível dos nutrientes
Desde a primeira aparição maciça em 2011, o fenômeno vem se repetindo na maior parte dos anos. Em 2025, a biomassa de sargaços atingiu níveis recordes, com uma extensão de milhares de quilômetros pelo Atlântico tropical.
Como algo assim foi possível? Uma das principais explicações está no aumento da disponibilidade de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo. Durante muito tempo, acreditou-se que o crescimento dos sargaços fosse limitado em regiões oceânicas abertas. No entanto, experimentos realizados desde os anos 1980 mostram que, em águas ricas em nutrientes, a biomassa dessas algas pode dobrar em poucos dias.
Entre 1980 e 2020, análises químicas indicaram mudanças importantes na composição dos tecidos dos sargaços, com aumento do teor de nitrogênio e alteração na proporção entre nitrogênio e fósforo. Esse enriquecimento nutricional ajuda a explicar por que essas algas conseguem crescer de forma tão intensa em determinadas regiões do Atlântico.
Parte desses nutrientes vem de processos naturais, como ressurgências oceânicas e mistura vertical das águas. Mas fontes terrestres também podem contribuir, incluindo escoamento agrícola, despejo de esgoto e deposição atmosférica. O Rio Amazonas, por exemplo, desempenha um papel importante ao lançar grandes volumes de água e nutrientes no Atlântico, influenciando a dinâmica dessas proliferações.
Mudança de regime e consequências para o ecossistema
Visto de cima, o azul do oceano dá lugar, em algumas regiões, a vastos campos de algas marrons. Para os cientistas, esse fenômeno pode ser interpretado como um sinal de mudança no funcionamento do Atlântico tropical, ainda que suas causas envolvam uma combinação complexa de fatores físicos, químicos e climáticos.
As correntes oceânicas transportam grandes massas de sargaços por longas distâncias, levando-as até o Caribe, o Golfo do México e áreas costeiras da América Central e do norte da América do Sul. Em certas regiões, esses acúmulos já provocaram encalhes massivos, com alto custo de limpeza e impactos significativos para comunidades locais.
Apesar de servirem como habitat importante para diversas espécies marinhas em mar aberto, os sargaços em excesso podem se tornar uma ameaça quando chegam às praias. Ao se decompor, liberam sulfeto de hidrogênio, um gás tóxico em altas concentrações, além de sufocar faixas costeiras, afetar recifes de coral, prejudicar a pesca e comprometer atividades turísticas.
Sargaços: paraíso ou pesadelo nos trópicos?
Nas Antilhas, na Guiana Francesa e em outras regiões costeiras do Atlântico tropical, os encalhes de sargaços se tornaram um problema recorrente nos últimos anos. A previsão desses eventos é hoje uma necessidade ambiental, econômica e de saúde pública, mas continua difícil por causa da influência das correntes, dos ventos e das condições meteorológicas.
Além dos impactos locais, os tapetes de algas em decomposição também podem emitir metano e outros gases, o que levanta questionamentos sobre seu papel no ciclo do carbono e em possíveis retroalimentações climáticas.
- alto custo de limpeza das praias;
- impactos sobre pesca, turismo e comércio local;
- riscos à saúde pública em áreas de grande decomposição;
- ameaças a recifes, gramíneas marinhas e outros ecossistemas costeiros.
Diante dessa proliferação sem precedentes, cientistas defendem maior vigilância internacional, modelos de previsão mais precisos e, sobretudo, a redução do aporte de nutrientes de origem terrestre para os oceanos. A eutrofização — o enriquecimento excessivo dos ecossistemas aquáticos por nutrientes — deixou de ser apenas um problema costeiro e pode estar contribuindo para transformar a dinâmica de grandes áreas do Atlântico.
Com o aquecimento dos oceanos e a entrada contínua de nutrientes vindos da terra, outras regiões do mundo também poderão enfrentar proliferações semelhantes? A resposta ainda exige cautela, mas os sinais observados no Atlântico já são suficientemente claros para justificar preocupação e monitoramento constante.